Termos essenciais para entender a política de cotas
O ano de 2022 marca os 10 anos da aprovação da Lei nº 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, e ainda há muita desinformação sobre o tema. Por isso, trouxemos alguns conceitos importantes para entender a importância dessa lei: o que são cotas, ações afirmativas, discriminação positiva e negativa, políticas antidiscriminação e quem tem direito às cotas no Brasil.
O que são ações afirmativas?
As ações afirmativas são medidas que têm como objetivo combater discriminações étnicas, raciais, religiosas, de gênero, de classe ou de casta, aumentando a participação de minorias no processo político, no acesso à educação, saúde, emprego, bens materiais, redes de proteção social e/ou no reconhecimento cultural.
São políticas que destinam recursos a pessoas de grupos discriminados e excluídos socialmente, no passado ou no presente, que trabalham com o viés da discriminação positiva para reduzir os efeitos da discriminação negativa. Essas políticas podem ser públicas, lideradas pelos governos federais, estaduais e municipais, ou privadas, aplicadas em empresas, escolas, entre outros.
Na educação, as ações afirmativas englobam as cotas no ensino superior, e também o aumento do número de vagas, de cursos, bolsas de estudo, novas universidades e novos campi (unidades) fora das capitais.
São exemplos de políticas de ação afirmativa:
- aumento da contratação e promoção de membros de grupos discriminados (como pessoas pretas, pardas e indígenas) no emprego e na educação por meio de metas, cotas, bônus e outros;
- determinação de metas ou cotas mínimas de participação na mídia, na política e outros âmbitos;
- distribuição de terras e habitação;
- medidas de proteção a estilos de vida ameaçados;
- e políticas de valorização identitária.
Políticas afirmativas, assim, podem tanto ser políticas de promoção da igualdade de oportunidade, quanto a promoção material e de direitos básicos de cidadania, bem como formas de valorização étnica e cultural.
O que são cotas?
As cotas são um tipo de ação afirmativa que busca corrigir desigualdades históricas para grupos discriminados como mulheres, pessoas pretas, pardas, indígenas, de baixa renda, entre outros.
As cotas no ensino superior surgem no Brasil em função de uma demanda histórica do movimento negro, que reivindicou a ampliação do acesso da população preta, parda e de baixa renda ao sistema de ensino superior do país.
As cotas nas universidades brasileiras correspondem à reserva de vagas disponíveis para pessoas de baixa renda, pretas, pardas e indígenas, e a partir de 2016, pessoas com deficiência.
Os autores Luiz Augusto Campos e João Feres Júnior afirmam que “as cotas são a modalidade preferencial de ação afirmativa praticada no Brasil, desde que as primeiras iniciativas dessa natureza foram tomadas. Elas têm se mostrado bem mais inclusivas que outras modalidades, como bônus ou programas de metas.”
Qual a diferença entre cotas sociais e raciais?
As cotas sociais englobam estudantes de escolas públicas, com renda familiar abaixo de 1,5 salário mínimo e pessoas com deficiência . Esse tipo de cota é criado para amparar estudantes que não tiverem acesso a um ensino médio de qualidade nas escolas públicas.
As cotas raciais englobam pessoas pretas, pardas e indígenas, discriminadas por sua cor de pele e cultura, a quem historicamente foram negados diversos direitos, inclusive à educação.
Quem tem direito às cotas?
A Lei de Cotas hoje beneficia quatro diferentes grupos: estudantes de escola pública, baixa renda, pessoas pretas, pardas e indígenas (PPI) e pessoas com deficiência.
Primeiro, 50% das vagas são reservadas para estudantes que cursaram o ensino médio na Escola Pública; dessas vagas, 50% são destinadas a pessoas de baixa renda.
Somente depois desses dois critérios, a dimensão racial é levada em consideração. Em seguida, há reserva de vagas para pessoas Pretas, Pardas e Indígenas (PPI) na mesma proporção da população PPI habitantes do estado onde fica a universidade.
As pessoas com deficiência passaram a ser incluídas na legislação em 2016.
Discriminação positiva x Discriminação negativa
A discriminação positiva trabalha para a promoção de maior bem-estar dos grupos discriminados, enquanto a discriminação negativa contribui para sua miséria e piora de condições de vida. Assim, a ação afirmativa é uma política de discriminação positiva.
Usamos a palavra “discriminação” para significar separação, distinção, e não está associada a um julgamento negativo, como muitas vezes acontece na linguagem comum.
É importante reconhecer a diferença entre as duas, para reconhecer porque as políticas afirmativas, que promovem o acesso de pessoas pretas, pardas e indígenas na universidade, não podem ser equiparadas com regimes de segregação racial, como o Apartheid, por exemplo: ambas são políticas que discriminam, mas com consequências opostas para as pessoas envolvidas.
Por fim, o princípio que o Estado não deve discriminar seus cidadãos, mesmo que em benefício dos mais desfavorecidos, é extremamente regressivo em termos de políticas públicas e conservador no sentido da manutenção do status quo – ou seja, não queremos falar de igualdade como tratar da mesma forma as pessoas, mas de equidade, para tratar as pessoas com diferentes situações com a mesma dignidade.
Qual a diferença entre ação afirmativa e política anti-discriminação (como Leis contra o Racismo)?
A ação afirmativa é diferente das políticas puramente anti-discriminatórias porque atua de forma preventiva em favor de indivíduos que potencialmente são discriminados: é uma prevenção à discriminação quanto como uma reparação de seus efeitos.
Políticas puramente anti-discriminatórias, por outro lado, atuam apenas por meio da punição ou repressão dos discriminadores, como a Lei nº 7716/2012, que tipifica o crime de racismo, ou trabalha para a conscientização dos indivíduos que podem vir a praticar atos discriminatórios.
A ação afirmativa busca garantir que grupos minorizados (exemplo: pessoas pretas, pardas e indígenas) consigam ocupar espaços no mercado de trabalho, nas universidades, na política, entre outros, que sem ela não seria possível diversificar o perfil das pessoas que frequentam esses ambientes.
Qual a diferença entre cotas e bônus?
As cotas significam a reserva de vagas, um número absoluto ou proporcional, destinadas a um determinado grupo, por exemplo, até 50% das vagas do vestibular para pessoas PPI (pretas, pardas e indígenas). Os outros 50% são disputados pelos métodos tradicionais de competição.
O bônus também é uma ação afirmativa, no entanto, diferente das cotas, são acrescidos pontos extras às notas dos candidatos de determinados grupos. No caso dos vestibulares de algumas universidades, por exemplo, são acrescidas porcentagens aos estudantes de escolas públicas e pessoas pretas, pardas e indígenas. A experiência no uso do sistema de bonificação mostram que não têm sido significativas na inclusão.
Qual a diferença entre preconceito, discriminação e desigualdade?
Preconceito: predisposição ou disposição à rejeição; uma atitude assumida diante de uma pessoa ou um grupo social, como pessoas pretas, pardas e indígenas, antes de conhecê-lo.
É uma atitude individual que reflete as ideias que circulam na sociedade e na cultura em que vivemos. Há pessoas que são preconceituosas, mas não discriminam outras, pois não agem sobre as ideias pré-concebidas que tem sobre grupos diferentes dos dela.
Discriminação: ações tomadas contra um grupo específico como consequência do preconceito, que afetam os direitos daquele grupo, como educação e saúde.
A discriminação racial, segundo a Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Normas de Discriminação Racial da ONU, ratificada pelo Brasil, diz que: Discriminação Racial significa qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional com a finalidade ou o efeito de impedir ou dificultar o reconhecimento e/ou exercício, em bases de igualdade, aos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou qualquer outra área da vida pública” (Art. 1).
Desigualdade: todas as pessoas são diferentes, porém, nas relações sociais, a desigualdade determina o lugar de certos grupos, seja por questões econômicas, de gênero, de cor, de crença ou grupo social. O fenômeno da desigualdade se manifesta no acesso aos direitos e, principalmente, no acesso a oportunidades.
A desigualdade prejudica e limita o status social dessas pessoas, além de seu acesso a direitos básicos, como: acesso à educação de qualidade, boas condições de transporte, direito ao trabalho, saúde de qualidade, direito à propriedade, entre outros.
Esse artigo faz parte da série especial sobre a Lei de Cotas no Mês da Consciência Negra em 2022.
Fontes:
- Cartilha: 10 perguntas para entender a primeira década da Lei de Cotas. Gemaa: Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa. Iesp-UERJ.
- GLOSSÁRIO: Ações afirmativas. Luiz Augusto Campos e João Feres Júnior. Nexo Políticas Públicas.
- 24 de setembro de 2021. Ações afirmativas | Nexo Políticas Públicas
- Legislação Antirracista. Gemaa: Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa. Iesp-UERJ. https://gemaa.iesp.uerj.br/legislacao-anti-racista/
- Você sabe o que é discriminação racial? Portal Geledés. 23 de março de 2011. https://www.geledes.org.br/voce-sabe-o-que-e-discriminacao-racial/
- Desigualdade social: um problema sistêmico e urgente. Politize! 31 de julho de 2017. https://www.politize.com.br/desigualdade-social/
- Cotas sociais no Brasil. Matheus Silveira Politize! 26 de agosto de 2019. https://www.politize.com.br/cotas-sociais/?https%3A%2F%2Fwww.politize.com.br%2F=
- Preconceito linguístico. Marcos Bagno. CEALE-FAE-UFMG. https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/preconceito-linguistico
- Curso 10 anos da Lei de Cotas, SESC Pompeia, São Paulo-SP, 10 e 11 de novembro de 2022. Ministrado pelos professores Luiz Augusto Campos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa-Gemaa; e a Prof. Márcia Lima, da Universidade de São Paulo-USP e coordenadora do Afro – Núcleo de Pesquisa sobre Raça, Gênero e Justiça Racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Afro-Cebrap).

